Rômulo Barros

Tempo, território corrente (2020)

Tempo, espaço corrente. Políptico. Transmidia. Cimento, sapeca-neguin, cabaça, sementes de pau-brasil, corrente, pérola.  Dimensões variadas.  2020

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O PRODUZIR

A produção deste trabalho teve como alimento a proposta de falar sobre o futuro, em meio a um ano marcado pela pandemia de COVID-19 e pela inflamação do pandemônio racista. O fascismo político, na tentativa da manutenção da supremacia hegemônica cis-branca, cresce em diversas partes do globo. No enfrentamento a esse cenário, aumentam também a exigência de direitos por grupos minoritários, que têm lutado por um mundo onde as violências cotidianas sejam discutidas e erradicadas.

 

No meio desse contexto sociopolítico caótico, me vi morando só pela primeira vez. E, tentando me preservar em isolamento social, tive várias crises e pensei muito na morte: minha morte, de amigas, de familiares, de pessoas vulneráveis, da população trans, da população preta, da população indígena… A morte com privação do corpo no território do tempo, o ceifar da possibilidade do futuro, o tempo, o futuro e seus ciclos; as mortes física e simbólica.

Pensar sobre a morte e entendendo o tempo colonial presente como apocalipse instaurado me faz pensar também no tempo em que eu não mais existirei. Desejo inserir o vestígio da minha existência nesse tempo futuro, nesse tempo que é da Terra, esse tempo que nem consigo imaginar muito bem. Talvez um tempo onde a correnteza dos rios já não irá na mesma direção do agora, onde o tempo já não é mais cronológico. Um tempo onde o mundo está desnorteado - no melhor sentido que estar desnorteado possa ter - não pela ausência das direções, mas pelo fato delas não estarem mais hierarquizadas como certas ou erradas, apenas como possíveis. Desnorteado pelo fato de não existir o norte como o fluxo correto e universal como tem sido. Um tempo onde o pluriversal substitua o universal, em que cada coisa se entenda como única e pertencente ao todo.

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Do agora para o futuro, este trabalho surge da vontade de pensar esse mundo e o que sobrou como ruína e memória desse meu corpo.

Fotografias analógicas. 

Colorplus 200. 

Romulo Barros, 2020.

O que será encontrado? Quais cacos e estilhaços meus serão encontrados no futuro, quando penso o agora como inteireza de mim mesmo? Como meus restos e minha memória vão perecer? Quais serão os fósseis de mim que serão encontrados? Minha morada será um sítio arqueológico? No futuro, o que o mundo se perguntará que estaria por detrás do hoje?

 

Construí placas de cimento incrustando materiais que tenho usado na minha produção até o momento, para, assim, tomar as rédeas do que desejo que fique para uma pretensa eternidade. Quero que quem encontre estes símbolos e relevos, no futuro imaginado, possa tomá-los como fósseis da minha existência e revisite o tempo do agora, por meio dessas inscrições lavradas, esculpidas e forjadas. E, assim como vemos resquícios de existência deixados por antigas civilizações, quero pensar nessas placas como lacunas simbólicas a serem preenchidas por uma arqueologia futura que busque estudar o agora a partir dos seus escombros.

 

O tempo deste trabalho não quer se limitar ao agora, tem em si o desejo de ir além, de se estender e se projetar para outras eras. As imagens e registros do processo, junto com o trabalho físico, buscam explicitar todas essas vontades e expectativas ao gravar alguma coisa no mundo.

Projeto dos monólitos. 

Romulo Barros, 2020.

EPÍGRAFES

Inscrevo, incrusto e gravo em placas de cimento meu epitáfio para o futuro, vislumbro e materializo a construção da minha própria história.

Crio no agora o que quero que seja encontrado de mim em um lugar nos tempos que ainda virão. Me empodero da minha trajetória para trazer um pouco do simbólico que construí até aqui. E crio também algum mistério na organização de vestígios da minha existência, deixando-os como legado em singelos monólitos.


Com essa breve autobiografia e autorretrato, gravo o que quero que esteja na minha lápide para que não escolham palavras por mim ou que me enterrem sem as minhas. Afirmo: nesse território de tempo eu existi. Não me subalternizem ou marginalizem, nem me subestimem, pois tomei as rédeas de toda a minha existência.

Vou sim falar dos pensamentos que tenho sobre a morte, como um lugar bem distante porém certo. Para aqueles que desejam a minha morte e a desumanização do meu corpo: sim, ele

perecerá, mas profetizo que isso ocorrerá daqui a muito tempo. E, mesmo depois que a morte física me alcançar, estarei aqui em memória, construída nos meus termos.

 

Não irão me matar, estou construindo aos poucos essa edificação simbólica, alicerçada pelo que fiz no mundo, com as minha memórias esculpidas na matéria das paredes como símbolos de uma vida vivida.

GALERIA DOS MONÓLITOS

DETALHES DOS MONÓLITOS

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PUBLICAÇÃO “TEMPO, TERRITÓRIO CORRENTE”